Blog de CARLOS SENA


15/02/2010


ARCO-ÍRIS DO "QUEM-ME-QUER"!

Vi no Pátio de São Pedro:
o homem e sua mulher
a mulher e sua mulher
ninguém no quem-me-quer!
Vi no Pátio de São Pedro:
o homem e seu homem
um João e outro José
ninguém no "quem-me-quer"!
Do lado do homem passou o traveco
Do lado dele o bofe cafussu e
ninguém mandou o traveco tomar.
Vi no Pátio de São Pedro
a bichinha pintosa com a outra igual
a primeira era Vanessa e a outra Quelé,
ninguém mais as mandou pro bem-me-quer.
Do lado da bichinha uma transex e
do lado dela a franchona toda prosa e
ninguém se atreveu confundir cravo com rosa.
Vi no Pátio de São Pedro
o Bofe junto do outro Bofe
Do lado de um a puta escrachada bafejava o cigarro
do lado do outro igual puta dissimulada lhe tirava um sarro.
Do mesmo lado do Bofe, o Cafetão alhures
Do lado, putas, travecos, sapatos, bichas e transgêneros
fingem-se boas Maria e bons Manés:
ninguém queria ir mais ao "quem-me-quer"...
Vi no Pátio de São Pedro
a carne e o aval: carnaval da anistia interior:
beijo na boca do homem e da mulher
vai lá quem quer,
não precisa ser João nem Maria nem José
porque lá ninguém vai pro "quem-me-quer"...

CARLOS SENA, dos arre(DORES) do Pátio de São Pedro, no centro do Recife e no mesmo dia do Galo da madrugada...

13.02.10


 

 

Escrito por CARLOS SENA às 19h34
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08/02/2010


MACHO SE VESTE DE MULHER(?)!

                                                                                             Carnaval 2010 - Decoração do Recife na praça do Arsenal.

Como bom pernambucano do ovo, pois da gema eu deixo pra minha terra natal que não é Recife, adoro carnaval. Não sou folião, mas carnavalesco, com certeza. Por isto, sempre que chega o carnaval, fico pensando sobre o mesmo tema e isto me recorre agora. Trata-se da grande quantidade de homens que se vestem de mulher no carnaval! Então fico pensando: será que não é o caso de fazer uma pesquisa para verificar algumas variantes? Algumas hipóteses neste sentido poderiam ser levantadas, por conta da dificuldade que sempre se apresenta quando a gente quer investigar comportamentos, principalmente quando tem um forte viés da sexualidade.
Hoje, por exemplo, Olinda pára! Todos vão ver as VIRGENS DO BAIRRO NOVO. Pra quem ainda não conhecer, trata-se de homens da chamada "sociedade" olindense que se travestem de mulheres e se organizam na troça com os temas mais irreverentes possíveis. Um ponto que todos os participantes garantem é que ali não tem veado, como se costuma cognominar os gays aqui no nordeste. Primeira ilusão é essa "garantia", pois a gente sabe que ninguém pode isto fazer com o "fiofó" dos outros. Segundo é a contradição que, num primeiro momento a gente encontra, considerando que consciente ou inconscientemente, há uma projeção no imaginário de todos. Talvez neste ponto, a gente tenha que delinear algumas hipóteses que poderão ser esclarecedoras num trabalho de pesquisa:


01 - Por que a gente não encontra mulheres vestidas de homem no carnaval do Recife?
02 - Por que, sendo as mulheres tão vitimadas pelo machismo, os "machos" querem ficar no lugar delas, mesmo no carnaval?
03 - Por que as imitações gestuais são tão próximas da realidade, não bastassem as vestimentas?
04 - Haverá nesse gesto algum tipo de sublimação, daí a projeção?
05 - Por que a preocupação de não deixar entrar veado?
06 - Será que isto ajuda a melhor compreender as esposas, namoradas, etc., já que se colocam como se elas fossem?
07 - Por que muitas das "virgens" levam as mulheres e filhos para a concentração do desfile?
08 - As mulheres serão mais seguras de si como mulheres do que os homens?
09 - As mulheres não teriam mais razões para se vestirem de "homem" no carnaval, considerando a histórica submissão e discriminação?
10 - Um divã de psicanalista não seria mais barato financeira e emocionalmente?

Rua do Bom Jesus, decoração carnavall 2010.
Como vimos, perguntar não ofende. Naturalmente que o universo humano é rico pelas suas contradições e idiossincrasias, mas contra fatos não existem argumentos. Imagino mesmo que muitos homens "virgens" se garantem e fazem disto uma fantasia, mas enquanto fantasia, outras facetas da vida social poderiam ser exploradas. Chocar! Barbarizar! Tudo pode acontecer no imaginário de qualquer pessoa diante da permissividade do carnaval. Fica evidente que a cultura, com seu grande poder de coercitividade, estabelecem sanções positivas e negativas, mas que no carnaval se adéqua... Entra em cena o relativismo cultural que também serve para qualquer argumento, inclusive para legitimar o homem que se veste de mulher no carnaval e a mulher que não se veste de homem, mesmo no carnaval.
Defendemos a liberdade de expressão como forma de vida e de felicidade, mas elaboramos esses questionamentos como forma de compreender o falso moralismo que tem norteado nossa sociedade. Ninguém ignora que o SOCIAL se estabelece na lógica dos status e papéis sociais. Em sendo geradas expectativas, corresponder ou não passa a ser o diferencial interior de cada indivíduo. Afinal, a sociedade é, inegavelmente, simbólica. Quando se trata de comportamentos, esse simbolismo se consolida na subjetividade de cada pessoa e a sua exposição acontece ou não, dependendo do nível de consciência que se tem do processo ou não. Neste sentido há uma relativa combinação entre o que se sente o que se deixa transparecer num processo psicanalítico mais sistemático. No cotidiano, os fatos vão acontecendo, geralmente, na determinação do inconsciente que é dinâmico e menos no consciente que é repressivo.
Concluo entendendo que noutro momento  deverei investigar estas hipóteses. Enquanto não chego nisto, alegro-me na alegria dos homens que são homens no carnaval, daqueles outros que são mulheres, das mulheres, dos gays, dos sapatos e das demais derivações. Afinal, beijar na boca e ser feliz é o que importa, mesmo que chegue logo a quarta-feira de cinzas e a gente tenha que enfrentar a quaresma para se redimir dos pecados...

 

Carlos Sena, 7 de fev 2010 - Do foco da folia no Recife.

 

Escrito por CARLOS SENA às 00h51
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03/01/2010


NATAL E O PÉ DE MANDACARU.

NATAL E O PÉ DE MANDACARU.


Fiz do meu pé de mandacaru, minha árvore de natal.
Ornei com samambaia, pus caroço de manga no lugar das bolas;
Das castanhas de caju, de uma fiz eu, de outra fiz tu:
ficaste no cume disputando a estrela guia vestida de carambola
enquanto fiquei embaixo, rezando a Nossa Senhora...
Para iluminá-la inteira, da base até o cume,
salpiquei de vaga-lume igual uma procissão.
Um piscava outro piscava,
um namorava outro beijava,
um acendia outro apagava, como sendo saudação!
Cada palma foi vestida de celofane e papel crepom
cada pássaro que ali chegava
se encarregava de passar o som:
o bem-te-vi, bem-te-via
o concris, conCRISTO servia
o canário entoava um canto Australiano, enquanto
o ferreiro, imitando o trinar do sino,
saudava aos ventos o nascimento do Menino!
Meu pé de Mandacaru nunca se viu mais garboso:
o entardecer do sertão completou esse cenário!
No cair da tarde, sem alarde,
deita perto da árvore o jumento da manjedoura;
o galo meio arredio, começa a farfalhar,
enquanto o sapo tranqüilo, começa chamar o grilo
para o coral ensaiar!
O coaxar do sapo, o cantar do grilo, o estribilho do galo,
ficaram desafinados
com o vocal da cigarra cantando qual maestrina...
O dia amanhece e era natal:
meu pé de mandacaru refletia eu, tu e os demais.
No alto da árvore, enramava exuberante pé de maracujá:
em cada canto uma flor roxa lembrava o sangue do criador
como mostrando a ironia da flor:
se o riso elas alegram
não relegam também a dor!
Fiz do meu pé de Mandacaru, minha árvore de natal
sem saber que seus espinhos, repicavam com carinho,
a saga do pecador!

Carlos Sena, dos arre(DORES) de Boa Viagem.

 

Escrito por CARLOS SENA às 21h05
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NATAL: UMA PALAVRA

 NATAL: UMA PALAVRA.

Queria uma palavra nova para te saudar neste natal; queria um gesto novo, um afeto novo, uma nova forma de dizer que trago dentro de mim “ouro”, “incenso” e “mirra” pra te ofertar.
Sei que poucos estão interessados, neste natal, em receberem de presente o ouro das atitudes nobres que sempre procuro cultivar; tampouco, o incenso que eterniza momentos de contrição incontida sempre que me curvo falando com Deus; muito menos a “mirra” que perfuma meus anseios e certezas e esperanças de um novo mundo sob o símbolo da solidariedade e do perdão.


Melhor talvez, não buscar palavra nova. Talvez resgatar sentimentos esquecidos de antigas palavras que a modernidade parece tê-las tornado démodé – elas não podem ser embrulhadas para presente, não vendem nas lojas, magazines e supermercados! A mais importante é o AMOR. Dele advém a SOLIDARIEDADE e o PERDÃO em seus sentidos seculares, cristãos.
Reedito-me pela certeza de que a palavra certa do natal é, como vimos, O AMOR. Amor sem fronteiras, nem cor, raça, credo, orientação sexual... Capaz de barrar a violência, o aquecimento global, o desmatamento, a corrupção, a impunidade, a ignorância, a deslealdade nas relações sociais, dentre outras.


Neste natal amemos e fim. Afinal, o amor, segundo Djavan, INVADE E FIM, nem sempre nesta mesma ordem, mas com a mesma magia transformadora da vida, do mundo e, certamente, das pessoas...

Carlos Sena, 2010, dos arre(DORES) de Boa Viagem.

Escrito por CARLOS SENA às 21h01
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A CONVIVÊNCIA E SEUS MISTÉRIOS.

A CONVIVÊNCIA E SEUS MISTÉRIOS.  

A vida sem mistério não dá pra ser decifrada. Pra não ter mistério, teria os homens que não nascerem com inteligência, pensamento, raciocínio, razão. Isto porque a vida em seus diversos labirintos é conduzida por nós, humanos, desde que, misteriosamente, aparecemos no planeta.

Os homens sempre  foram os seus sistemas sociais que se lhes foram permitidos, nos diversos períodos. Referenciamos os modos de vida de cada geração – culturas diversas nas mais variadas tonalidades. Em cada período desses, uma verdade foi estabelecida e, naturalmente, norteou toda a geração daquela cepa de sociedade estabelecida.
Paulatinamente, foi se construindo no tempo histórico e social, todo um lastro de maneiras de pensar, agir e sentir. De uma geração para outra, de alguma maneira, muitos aspectos comportamentais são repassados para as gerações seguintes, donde muitos modos de vida conseguem ser transmitidos com pouca modificação. Cada década que se passa, pode estabelecer novas condutas, principalmente, no âmbito da sociedade urbano-industrial, secularizada. Neste sentido, a evolução tecnológica e científica foram preponderantes, considerando que tiveram grande influência em novas práticas de convivência proporcionadas, no geral,  pela inserção de novos equipamentos  eletroeletrônicos e nanotecnológicos.
 
O homem é o que ele pensa! Suas atitudes sociais só se controlam no âmbito das Instituições Sociais. De fato, livre pensar é só pensar, como disse Millôr Fernandes. Fazê-las e execá-las, no entanto, tem sérias implicações uma vez que invadem as relações nos seus diversos níveis de complexidade. Conviver em condomínio é um forte exemplo disto, principalmente se esse conglomerado for periférico e com elevado contingente de pessoas.
 
A chamada sociedade moderna tende a tudo simplificar, principalmente no tocante aos bens de consumo. Complexifica, acreditamos, no viés da relação interpessoal. Porque sendo “INTERPESSOAL” requer de cada um, no coletivo, a socialização simbólica de atos e atitudes que, no interior dos indivíduos são estruturados de cima pra baixo como se o inconsciente determinasse ao consciente. Em tese estaria instalado um conflito entre o que cada pessoa codificou sobre, por exemplo, o amor: um indivíduo vê esse sentimento com viés romântico, enquanto a maioria dos seus colegas de trabalho, ignora e condenam esse prisma de amar. A dimensão disto se multiplica exponencialmente, se levarmos em consideração, por exemplo, “VOLUME DE SOM EM APARTAMENTO”! A tendência é cada condômino se achar no direito de ouvir sua musica no volume que entende, ignorando, inclusive, legislações específicas dos órgãos de controle ambiental.
 
Os mistérios da vida não estão nos ditames das seitas e igrejas tradicionais, como se pode imaginar. A grande dificuldade está no livre pensar que nos arvoramos em função de dispormos desse monumental dispositivo humano chamado pensamento. Nesse  utilitário  “equipamento” que nos faz distinguir dos demais seres na terra, construímos nossos sonhos, fantasias, mitos e realidades. Focando o mito, permitimo-nos a isto sem qualquer reprimenda de outros sentidos acerca. Eu posso achar que sou “deus” e ninguém vai me convencer disto. Argumento: sou deus de mim, de minhas convicções, do meu destino, do meu amor e da minha dor, etc.. Como derivado disto, posso até criar amuletos, estabelecer cânones e o que mais for preciso que eu queira fazer, idiossincraticamente. De uma hora pra outra, como num passe de mágica, poderei ser seguido por mais pessoas e, de repente, poderei ser um “Roque Santeiro” da vida e das novelas.

O mundo está cheio de histórias pessoais e coletivas que, o mínimo que a gente pode dizer é que são loucuras. O conceito de loucura, por sua vez, incorreria na mesma acepção simbólica envolvendo o coletivo e o particular, o inconsciente e o consciente, como vêm anteriormente. Diante de um gigantesco boato, dificilmente se consegue, com firmeza, detectar sua origem e mentores. Normalmente proporcionam a turba que, beirando o irracional, conduzem às mais diversas atitudes negativas protocoladas pela sociedade em seu universo simbólico.
O ataque terrorista às torres gêmeas consternou o mundo. Foi transgredida uma regra natural do ser humano: a vida em seu sentido mais absoluto. Isto por conta de condutas fanáticas calcadas na crença, ao que tudo foi noticiado, de que os terroristas suicidas teriam a salvação dentro de preceitos muçulmanos. No terreno dos mistérios, nós, ocidentais, dificilmente entenderíamos o acontecido fora do conceito de loucura, como de fato pensamos.

Conviver não é fácil entre os aparentemente iguais. Certamente se complica entre os abertamente diferentes, os disfarçadamente iguais e entre os assumidamente diferentes em suas igualdades.
Talvez tenhamos que admitir que a teoria dos jogos, nas relações interpessoais, base da Análise Transacional, tenha que ser revista e adequada a uma nova forma. Isto porque há uma afirmativa na AT que condena o “jogo” nas relações interpessoais, mas tudo parece caminhar para o entendimento de que a vida moderna esteja legitimando esse “jogo”, salvo melhor estudo sobre isto.

Poderemos finalizar estas considerações acerca do mistério, reafirmando que somos nós os nossos fantasmas e os construtores das nossas próprias cavernas. Afinal, Sartre já nos brindava com "O Inferno São os Outros". No limiar de tudo, resta a descoberta tardia de que convier em sociedade requer solidariedade, educação, respeito às diferentes formas de agir. A igreja católica entrega à Santíssima Trindade tudo que ela não sabe explicar aos fiéis. - Mistérios?
Os homens entregam à loucura, tudo aquilo que eles não tem condições de compreender com base no seu saber. Parece que, em pleno terceiro milênio,  não descobrimos um remédio que nos pudesse curar o mal do egoísmo.
Como dizia "D. Milu": - Mistérios?

CARLOS SENA, 2010, dos arre(DORES) de Boa Viagem.

Escrito por CARLOS SENA às 20h54
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